sábado, 17 de março de 2012

Charneca de Caparica (1): Quinta de Monserrate (2.ª Revisão)




 

Um dos elementos patrimoniais mais importantes da freguesia da Charneca de Caparica, junto com a Quinta do Vale Rosal, a Quinta de Monserrate (antiga Quinta do Banha) constitui não só pela sua valia histórica, como também pela sua importância artística um marco na paisagem desta vila do Concelho de Almada.
Infelizmente, existem ainda muitos aspectos da sua história que são desconhecidos, assim deixo aqui um pequeno contributo, que espero ampliar no futuro, sobre alguns dos aspectos históricos ligados às origens deste espaço.

Para mais informação podemos consultar a respectiva Ficha do Inventário do Património Arquitectónico, em:



(Planta Cadastral)

Cronologia:
1626 – Auto de Avaliação das benfeitorias que esta Quinta precisava com pareceres para se aforar, ou arrendar. [2.ª Rev.]

1643 – Escritura pela qual Luís Correia da Paz comprou a Quinta do Banha aos herdeiros de Francisco de Matos Cardozo. [2.ª Rev.]

1650 – Sentença que obteve Luiz Correa da Paz, para se levantar o Sequestro na mesma Quinta feito pela Fazenda Real, por Fiança a que se dizia obrigado hum antigo possuidor dela. [2.ª Rev.]
Fonte:
TT, Colégio dos Nobres, Liv. 71, f. 34

1653 – Na vila de Almada vivia Nicolao Davaluis (?), o Banha e sua mulher Mariana de Sousa Coelha (Correia ?), morador na cidade de Ulieca (?) e residente nesta vila, que casou o filho Luís António Davahuy o Banha com Antónia da Mota Correia, filha do Licenciado Gaspar da Mota Lobato, Prior de Santiago de Almada. A origem da quinta do Banha (antecedente da Quinta de Monserrate) poderá estar relacionada com esta família, possivelmente de origem francesa.
Fonte:
DGARQ/ADS, CNA, L. 45, f. 87v, 5.8.1653

1672 (23 de Janeiro) – A quinta do Banha pertencia a Luís Correia da Paz, filho de Fernão Correia da Silva e Branca da Paz, e estava ligada a um vínculo de Capela estabelecido nesta data (Testamento lançado no Cartório do T. Aurélio de Miranda), e que tinha como cabeça a Capela de S. Luiz Gonzaga do Colégio da Cotovia dos Padres da Companhia.
Esta Capela, que era a primeira do lado do Evangelho junto do púlpito, foi comprada ao Noviciado dos Padres do Colégio da Provação da Cotovia por escritura de 30 de Dezembro de 1666 (Cartório do T. António Pinto de Lemos), por Luís Correia da Paz, muito devoto daquele Santo, seu patrono, a fim de ali  ter jazida, dando por ela 390$000 réis. Por outra escritura de 27 de Abril de 1669, deu mais 350$000 réis, obrigando-se o reitor à fábrica da capela e mais encargos.
Falecendo Luís Correia em 1691 deixou por testamento um juro de 69$000 réis na Estância do Tabaco para duas missas anuais de 30$000 réis cada e os 10$000 réis para os administradores.
Por morte dos seus filhos ficaram ainda ao Noviciado umas casas na rua do Ourives, com obrigação de outra missa diária, e a quinta do Banha, em Caparica, como o encargo de uma missa anual.
Os Jesuítas começaram a administrar a quinta em Dezembro de 1725, por morte de Brites da Paz, uma das duas filhas de Luís Correia, que casou 2 vezes (com  Domingos Lopes da Silveira, e depois com Diogo Mendes Correia) mas sem descendência, e que terá mandado edificar a Ermida de S. Luiz da referida quinta do Banha.
Além da filha Brites da Paz, a quem Luís Correia deixou bens em vida,  teve também de Guiomar Rodrigues de Sousa, sua mulher, mais uma filha, Branca da Encarnação, que foi freira no Convento de St.ª Mónica, e um filho, Luís Correia de Sousa, que morreu em 1655 e foi depois sepultado na capela de seu pai.
Fontes:
Depois do terramoto: subsídios para a história dos bairros, Vol. 1 por Gustavo de Matos Sequeira, 1934, pp. 239-241

DGARQ/TT, Hospital de São José, L.º 29, ff. 350-371

1680 – Registo da décima da quinta de Luís Correia do Banha.
Fonte:
AHMA, L.º Déc. Caparica, 1680, f.21

Década de 1690 – Possivelmente neste período é edificada na quinta da Caparica de Brites de Paz uma Ermida dedicada a S. Luiz, Rei da França (ou possivelmente B. Luiz Gonzaga).
Fonte:
DGARQ/TT, Cartório do Distribuidor, L.º 70, f. 161v

1719 (19 de Setembro) ??? – Testamento de Diogo Mendes Correia, 2.º marido de Brites da Paz, viúva de Domingos Lopes da Silveira, morador junto ao Convento de St.ª Ana e proprietário da quinta do Banha, em que manda-se sepultar na Capela de S. Luiz Gonzaga dos Padres da Cotovia.
Fonte:
DGARQ/TT, Registo Geral de Testamentos, L.º 107, f. 41

1725 – Depois da morte de Brites da Paz a quinta do Banha entrou na posse definitiva do Noviciado da Cotovia dos Padres da Companhia em Dezembro de 1725, tendo vendido as casas, por um juro de 70$000 réis, ao Senado da Câmara, em Abril de 1695.
Fonte:
Depois do terramoto: subsídios para a história dos bairros, Vol. 1 por Gustavo de Matos Sequeira, 1934, pág. 240

1736 – No Dicionário Geográfico do Padre Luís Cardoso cita-se na freguesia da Caparica a Ermida de «S. Luiz, [Quinta do Banha]».
Fonte:
Diccionario Geográfico ou Noticia Historica de todas as Cidades, Villas, Lugares etc., pelo Padre Luís Cardoso, Vol. 2, 1751


(Foto da Quinta de Monserrate, antiga Quinta do Banha) [1.ª Rev.]

1749 (9 de Fevereiro) – Obrigação que faz António Jorge, caseiro da quinta do Banha dos Padres da Companhia de Jesus, freg N.S. do Monte de Caparica.
Fonte:
DGARQ/ADS, L. 98, s/f, 9.2.1749

1758 (Abril) – O Cura da Caparica, Padre José António Veiga cita na sua "Relação Topográfica desta freguesia de Nossa Senhora do Monte Caparica" que nos «Casais da Quinta do Banha, 13 .ª povoação em que há 56 fogos, e uma Ermida de São Luiz em a dita quinta».
Fonte:
DGARQ/TT, Memórias Paroquiais, Caparica - transcrito por Alexandre M. Flores in «Vila e Termo de Almada nas Memórias Paroquiais de 1758, Anais de Almada, 5-6 (2002-2003), pp 23-76

1759 (8 de Setembro) – Auto de Sequestro feito na Quinta do Banha.
AUTO
«SEQUESTRO FEITO NA QUINTA DO BANHA, assim chamada (sita em Campolide [equívoco de tradução!]), Termo de Depósito dos Trastes de Ermida que ficaram em mão e poder de António Pereira, caseiro da Quinta do Banha, assim chamada:
- um cálix de prata dourada, e sua patena do mesmo, e sua colher do mesmo;
- duas Bolsas de Corporais;
- três véus de cálices;
- duas palas; - seis sanguinhos;
- duas toalhas de Comunhão;
- uma toalha de Altar;
- um frontal;
- um Breviário em seu uso e três livrinhos pequenos;
- duas casulas;
- uma alva;
- cinco portas de cortinas pequenas;
- dois Missais, um novo e outro bastante usado;
- uma estante de Altar;
- quatro castiçais de estanho;
- umas galhetas de estanho;
- duas toalhas de lavatório;
- um lavatório de folha de Flandres, usado;
- uma alampada amarela;
- uma caixa pequena em que se guardam os ornamentos»
Fonte:
Documentos para a História da Arte em Portugal, Vol. 4 – Noviciado da Cotovia e Hospício de Francisco de Borja [Arquivo do Tribunal de Contas, Erário Régio, Cartório da Junta da Inconfidência - Sequestros à Companhia de Jesus, Tomo organizado por Luiz Bivar Guerra], Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 198?, pp. 32-33.

1765 (12 de Outubro) – A Quinta do Banha está entre os bens que o Rei D. José dota para a fundação do Real Colégio dos Nobres por Carta Régia desta data. Estes bens eram, na sua maior parte, bens que tinha sido administrados pelos Jesuítas até 1759. No caso da Quinta do Banha, esta fazia parte da Capella instituída por Luis Correa da Paz, e dela os Jesuítas não contavam com o rendimento por se achar obrigada a benfeitorias. [2.ª Rev.]

1795 (27 de Agosto) – A Quinta do Banha foi aforada pelo Colégio dos Nobres ao Monsenhor Horta por 30$000 rs e laudémio de quarentena. [2.ª Rev.]
Fonte:
TT, Colégio dos Nobres, Liv. 71, f. 119


1796 (29 de Agosto) – A Quinta de Monserrate já é assim citada numa Escritura de «Compra que faz o Ilº João Joze Carlos de Miranda e Orta (FCSM, CSM, Prelado da Patriarcal da Sta Igreja de Lx), «Monsenhor Horta», a Thereza Maria de Jesus e mais herdºs de Manuel Rodrigues de huma fazenda chamada o Conhalzinho na Charneca de Caparica, constituída por terra de vinha e mato com sua casa e forno místico, que parte do nascente com a Quinta de Monserratte e poente com azinhaga chamada do Rego e do sul com terra de João Rodrigues tudo sita na Xarneca de Caparica».
Fonte:
DGARQ/ADS, Cartórios Notariais de Almada, L. 167A, f. 11, 29.8.1796

(Cunhal com Brasão e Logo com as iniciais Q.M. = Quinta de Monserrate) [1.ª Rev]

1796 – A quando das obras de remodelação das casas da quinta do Banha (correspondentes a uma parte do lugar do Botequim) foi construído um Palacete e a quinta passou a ser conhecida por Quinta de Monserrate.
Pereira de Sousa diz nos que à entrada da Quinta ostenta no portal uma lápida com a inscrição: "Quinta de Monserrate, 1796".
Fonte:
SOUSA, Raul H. Pereira de, Almada: Toponímia e História, Almada: C. M., 2003, p. 166

(Capela de Nossa Senhora de Monserrate)


1798 (26 de Maio) – António Joze Ferreira, que comprara o domínio útil da Quinta do Banha ao Monsenhor Horta, requere licença régia para remir o foro do Colégio dos Nobres por 825$000 rs de Apólice do Empréstimo aberto no Real Erário, para ficar assim também com o seu domínio directo. [2.ª Rev.]
Fonte:
TT, Colégio dos Nobres, Liv. 71, f. 78, 121

1798 – A Capela de N.ª Sr.ª de Monserrate terá sido edificada (?) por ordem de António Joze Ferreira.
Fonte:

Segundo Cyrillo Volkmar Machado, as imagens de Nossa Senhora de Monserrate e Santo António, em quadros colocados nesta Capela foram da autoria do pintor Felisberto António Botelho, cuja biografia descreve:
«É natural de Lisboa aonde nasceu em 1760. Estudou a Arte na Escola de Pedro Alexandrino, e tem pintado a óleo, a tempera, e a fresco, para os Gabinetes, Teatros, e Igrejas. Fez o painel da Cêa de 20 palmos para o refeitório dos Padres Crúzios nos Subúrbios de Lima. O da Conceição de 14 palmos para uma Ermida nas Praias. O quadro de Jordão para a Freguezia do Sacramento. A Senhora de Monserrate, e Santo António para outra Ermida no termo d'Almada. A Senhora das Dores para outra pequena Igreja. Em 1806 pintou todas as figuras, tanto as coloridas como as de claro-escuro no tecto chamado do Costa no Paço de Nossa Senhora da Ajuda.
Na Ermida das Mercês, junto a Carnide tem o painel da mesma invocação, outros da vida de Nossa Senhora, e alguns com Anjos. São também produções do seu engenho os de Nossa Senhora, e do Santíssimo Nome de Jesus, que se veneram na Freguezia de Odivellas.
Começou a estudar a Pintura em 1776, e prosseguio sem interrupção até 1808, sendo a última obra que fez o Retrato de Sua Magestade, então Príncipe Regente. Depois disso, achando-se falto de vista, só tem dirigido algumas cousas executadas por seu filho e Discípulo, António José Faustino Botelho».
Fonte:
Colleção de memorias relativas ás vidas dos pintores, e escultores, Por Cyrillo Volkmar Machado, Joaquim Martins Teixeira de Carvalho, Vergílio Correia, 1922, pág. 110

(Imagem do interior da Capela, onde se vê os dois altares laterais,
de N.S. de Monserrate e St.º António) [1.ª Rev]



1807 (8 de Janeiro) – Abertura do Testamento do Ilustríssimo António José Ferreira, Cavaleiro e Comendador na Ordem de Cristo, negociante morador na Rua Direita da Porta de St.ª Catarina, freguesia do SS.º Sacramento de Lisboa e possuidor da Quinta de Monserrate na outra Banda.
Deixou como herdeiro universal o sobrinho Francisco António Ferreira, a quem recomenda que continue a missa de todos os Domingos e Dias Santos na Capela da Quinta de Monserrate, a que obriga o rendimento da mesma quinta e herança, isto em benefício público dos vizinhos da mesma quinta.
O Testamento foi escrito em 6 de Janeiro de 1807 e António José faleceu 1 dia depois.
TESTAMENTO
«Em nome da SS.ª Trindade = António Joze Ferreira, Cavaleiro e Comendador da Ordem de Cristo, morador nesta cidade na Freguesia do SS.ª Sacramento achando-se no seu prefeito juízo dispondo por morte faço meu testamento e declaro de última vontade (…) deixando o meu funeral à disposição e arbítrio do meu testamento (…) 100 missas por minha Alma de Corpo presente de 480 $ rs cada vez, no tempo de 2 meses 200 missas de 240$ rs cada vez, 100 missas pela alma do meu pay, 100 missas pela alma da minha may, 100 missas pela alma de meu irmão João Ferreira, todas de 240$ rs
(…) sem avendores e devedores instituo por universal herdeiro o meu sobrinho Francisco António Ferreira, e por testamenteiros o meu sobrinho e António Joze Nunes, meu Guarda Livros
(…) bens da Comarca de Viseu, minha pátria, deixo em duas partes iguais, uma para os filhos do meu irmão Alexandre e outra para os filhos do meu irmão Fradique Ferreira
(…) 10 contos de réis divididos por todos os meus sobrinhos //
90$ rs cada ano para a minha sobrinha Jozefa Rosa de São João, Religiosa no Tojal
(…) ao meu sobrinho Luís António Ferreira, meia propriedade na Rua dos Ourives do Ouro, que faz esquina, mais 16 contos de réis de uma vez
(…) ao meu sobrinho António Ferreira da Silva, uma propriedade na Rua do Ouro próxima, e mais outros 16 contos de réis
(…) à Irmandade do SS.º Sacramento perdoa e deixa em esmola o que esta lhe esteja devendo
(…) perdoa a Sociedade de Lisboa e Rio de Janeiro com os seus 4 sobrinhos o que esta lhe esteja devendo em benefício dos 4 sobrinhos
(…) à Comadre D. Joaquina Roza de Morales a propriedade imediata a esta em que vive por sua habitação
(…) O meu herdeiro será obrigado a continuar a Missa todos os Domingos e Dias Santos na Capela da Quinta de Monserrate, e isto é minha tenção; porque com esta // condição o instituo e gravo não só o rendimento da mesma quinta, mas toda a herança, e isto sem vínculo de Capela e só com a condição expressa em benefício público de todos aquelles vezinhos …
(…) a meu sobrinho Joze Ferreira, filho de um filho de meu tio que está na Fábrica de Portalegre deixo 4:000$ rs
(…) A Joaquim Ferreira, meu caseiro na outra banda tenho adiantado por conta dos vinhos que se venderam para a Ribeira 192$ rs mando que ajustado a conta me faça abatimento de 96$ rs
(…) e ao de Monserrate Joze Pinto mando se dê legado 8 moedas
(…) Recomendo ao meu herdeiro tenha toda a consideração em fazer que a Missa na Capella da Quinta se conserve enquanto for possível e ainda para despois delle em seus possuidores.
(…) Lx.ª 6 de Janeiro de 1807. Eu que Escrevy. Joze António de Barbosa = António Joze Ferreira.
Aprovado 6 de Janeiro de 1807
Abertura 8 de Janeiro de 1807 (…) que falecera depois da meia noite do dia anterior».
Fonte:
DGARQ/TT, Feitos Findos, Registo Geral de Testamentos, L.º 357, ff. 204-205



1813 – O Portão de entrada regista «F. A. F. 1813» que deve corresponder às obras de conclusão ou tomada de posse da quinta por Francisco António Ferreira em 1813. [*]
Francisco António Ferreira era filho de João Ferreira ou João Ferreira Sola (falecido em 16.4.1788), irmão de António José Ferreira.
Fonte:
O Chiado pitoresco e elegante: história, figuras, usos e costumes, Por Mário Costa, Edição: 2 – 1987, pp. 157-159


1825 (22 de Maio) – Casamento na: «Capella de N.ª Sr.ª de Monserrate», no «sítio da Xarneca», na quinta do «Ilustríssimo Francisco António Ferreira», morador na freguesia do Santíssimo Sacramento, Lisboa. [2.ª Rev.]
Fonte:
DGARQ/ADS, Caparica, Casamentos, L.12, f. 65v

1825 (10 de Janeiro) – Aviso sobre requerimento de Francisco António Ferreira que pretendia juntar uma fábrica de vidro á «sua Fábrica movida por Máquinas de vapor, e Fundição de ferro, estabelecida no sitio do Bom Sucesso». A resolução é de 15, tomada no palácio do Alfeite. (F. 22 a 24)
(8 de Fevereiro) – Aviso Remetendo à Junta do Comércio, para consulta, o requerimento de Francisco António Ferreira, em que pretende que na Alfandega se tome nota da quantidade de Carvão de Pedra, que lhe está designado para a laboração das suas fábricas no Sitio do Bom Sucesso (...). (F. 84 e 54v).

1831 (22 de Março) – Pelo que respeita ás duas fábricas movidas por Máquinas de vapor, das quais é proprietário Francisco António Ferreira, erectas no sitio do Bom Sucesso, avençaram-se a de manufactura de vidros, em 60$000 rs, e a de Ferraria, em dezanove mil e duzentos rei.
Fonte:
SANT'ANA, Francisco, Documentos do Cartório da Junta do Comércio respeitantes a Lisboa, II (1804-1833), Lisboa, C.M., 1978, p. 371, 373, 478

1896 – Sobre esta Capela e a festa de Santo António que nela se realizava, Duarte Joaquim Vieira Jr. assinala, em 1896, que: «O povo da Charneca não tem egreja propriamente sua. A sua missa no domingo, assim como a festividade que anualmente ali se faz nos mezes de setemebro ou Outubro, em honra do milagroso Santo António, é celebrada na pequena capela do antigo palácio do Solla, hoje propriedade da Família Ferreira. É no grande páteo d'este palacete, que é vedado por uma portão de ferro que orla a direita da estrada districtal, que se faz o arraial da festa que em todos os annos costuma ser muito vistoso e bastante concorrido».
Fonte:
VIEIRA JR., Duarte Joaquim, Villa e Termo de Almada: Apontamentos Antigos e Modernos para a História do Concelho, Lisboa: Typographia Lucas, 1896, p. 126

Séc. XX
No século XIX foi pertença do General Manuel António de Araújo Veiga, a quem chamavam "o Capitão rico", passando depois à sua filha Teresa de Araújo Veiga, ao que parece nos anos 20 do século passado.
Depois de 1910 a capela foi usada como local de culto público da Charneca, após o incêndio na Capela de Vale Rosal e enquanto igreja da Imaculada Conceição não foi aberta ao culto (1965).
A partir dos anos 40-50 a quinta passa a pertencer ao empresário Vasco Morgado.

Vasco Manuel Veiga Morgado (1924-1978), nascido na Charneca de Caparica, era neto do general Araújo Veiga, tendo casado com a actriz Laura Alves (1927-1986), de quem teve um filho, o também empresário Vasco Morgado Jr., ao que parece o último proprietário conhecido da quinta.

Foi Vasco Morgado que mandou fazer a pintura da abóbada da capela (hoje desaparecida pelas ruínas da casa e da capela) ao artista Francisco Relógio (1926-1997), figura do movimento artístico da arte moderna (para uma biografia mais detalhada veja-se: http://www.circuloarturbual.com/default.aspx?tabid=176).

Após o 25 de Abril de 1974 chegou a funcionar neste espaço um infantário.

Em Julho de 2000 foi aprovada de moção pela Assembleia de Freguesia da Charneca de Caparica pedindo a recuperação e posterior classificação como imóvel de interesse municipal.

Séc. XXI
Em 2011 a propriedade está bastante arruinada e encontra-se para venda. [1.ª Rev.]

 


Fontes adicionais:
ARCOS, Conde dos, Caparica através dos Séculos, vol. 1, s. l.; 1972, p. 35
«Quinta de Almada para classificar», in Jornal Público, 2000, 12 de Julho;
«Anastácio quer Monsarrate», in Jornal Sem Mais, 2000, 17 de Agosto.


RUI M. MENDES
Caparica, 29 de Abril de 2011

Edições e Revisões deste Artigo:
1.ª Ed.:     29/04/2011
1.ª Rev.:  26/06/2011
2.ª Rev.:  17/03/2012

Charneca de Caparica (2): Aroeira (3.ª Revisão)


 Introdução

A Vila da Charneca de Caparica é uma das povoações do Concelho de Almada cujo povoamento é mais recente, pois apesar de alguns núcleos ligados à actividade piscatória e de exploração mineira que terão existido nas zonas da Adiça e Fonte da Telha (próximas mas fora dos limites da freguesia), os primeiros registos de uma fixação humana mais permanente datam já da segunda metade do século XVII estando ligados à actividade pastorícia e florestal (p. ex. sangradores e couteiros).
De facto até ao século XVII toda a região seria constituída na sua quase totalidade por extensas áreas de vegetação silvestre e pinhais, como o Pinhal de Cavala, o Pinhal da Aroeira, o Pinhal de Val de Figueira, ou a Mata dos Medos.
Ao povoamento tardio fruto de uma menor valia agrícola dos seus terrenos, acaba por corresponder uma menor diversidade e antiguidade dos seus elementos patrimoniais, quer se tratem de casas e quintas, de igrejas e capelas, ou de outros elementos como moinhos, fontes, etc., e os que existem, ou estão em mau estado de conservação, ou, como no caso do Cruzeiro dos 40 Mártires, em vias de desaparecer!
Assim, aquilo que noutras localidades mais ricas em vestígios patrimoniais é importante, em localidades como a Charneca de Caparica é essencial, que é a descoberta e valorização de todos os elementos e vestígios históricos, assim dos mais antigos como dos mais recentes, e que constituíram a herança patrimonial das gerações futuras.
Falando especificamente da Aroeira, que escolhi para este 2.º post por se tratar um dos lugares mais recentemente urbanizados do território da Freguesia e Vila da Charneca de Caparica, uma visita à zona rapidamente nos transmite, pela análise da arquitectura local, que se trata de um lugar urbanizado há pouco mais de 30-40 anos. Esta urbanização ocupou uma vasta área a sul das Quintinhas, nos chamados Pinhal de Valbom e Pinhal da Aroeira. Trata-se pois de um lugar que à primeira vista está desprovido de elementos históricos e patrimoniais, no entanto numa visita mais cuidada encontramos alguns edifícios recentes com algum interesse arquitectónico e urbanístico, e procurando nos arquivos e cartografia antiga encontramos ainda pistas sobre outros elementos prévios à urbanização do lugar e que merecem ser conhecidos, investigados e quem sabe redescobertos!


O Casal da Aroeira e a história da sua Capela
 
(Localização e Fotos aéreas da actual «Casa da Aroeira», foto Bing Maps) [1.ª Rev.]


Das esparsas edificações que existiram até ao século XX na zona da Aroeira, a de que temos a notícia mais antiga é o «Casal da Aroeira», ou «do Arneiro», a qual deveria corresponder à actual «Casa da Aroeira», situada entre o Pinhal da Aroeira e o Pinhal do Arneiro, e registada na cartografia do século XIX e XX.
Documentada no século XVII, esta propriedade aparece na cartografia até aos anos 60-70 do séc. XX e ainda hoje existe uma propriedade chamada do Pinhal da «Casa da Aroeira» ou «do Inglês» como também é conhecida, situada entre a Urbanização da Aroeira e a estrada de acesso à Fonte da Telha, e onde se encontra uma antiga residência originária já da 1.ª metade do século XX. [ 1.ª Rev.]

Encontramos pelo menos 3 registos do século XVII sobre o Casal da Aroeira, dois que se encontram transcritos nos Livros da Câmara Eclesiástica de Lisboa e um citado no Index das notas de vários tabeliães de Lisboa, entre os anos de 1580 e 1747 (obra em 4 tomos com extractos de escrituras coligidos por Luiz Montez Matoso).
Os documentos da Câmara Eclesiástica referem que em 1657, o Padre António Soares de Albergaria (1581, Castelo Branco - + 1662 c., Almada, ver apontamentos biográficos no post «Figuras de Almada (2): Padre António Soares de Albergaria, Historiador e Heraldista») tinha edificado no seu Casal da Aroeira, na freguesia de Nossa Senhora do Monte de Caparica, termo da vila de Almada, uma Ermida ou Capela dedicada a Jesus, Maria e José, a Sagrada Família.

Na sequência da edificação da Capela o Padre António Soares de Albergaria apresentou uma petição ao Cabido da Sé de Lisboa para se lhe conceder Licença para nela se celebrar Missa como Ermida pública, o que lhe foi concedido por uma Provisão dada em Lisboa, a 11 de Julho de 1657 e registada à folha 294, do Livro IX de Registo da Câmara (cfr. Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa, U.I. 317, ff. 294-294v), com o seguinte sumário:
«Provisão de Licença ao Padre António Soares de Albergaria, para se dizer Missa na Ermida de Jesus, Maria e José, que edificou junto das casas da sua quinta do Casal da Amoreira (sic), na freguesia de Nossa Senhora do Monte de Caparica, termo da vila de Almada».

No mesmo livro na folha 294v, regista-se ainda a Escritura de Dote para a constituição da fábrica da Ermida, que era uma das condições necessárias para obter a referida licença, as outras eram ter acesso público e estar decentemente fabricada e com todos ornamentos necessários para a celebração do culto religioso. Na Escritura, feita em 5 de Junho de 1657 por Manuel Medeiros Caldeirão (Tabelião público da vila de Almada), o Padre António Soares de Albergaria, Clérigo do Hábito de S. Pedro, vincula 3$000 réis anuais dos seus rendimentos para a referida fábrica da «Ermida de Jesus, Maria e José, que tinha edificado no seu Casal chamado da Roera, no termo da vila de Almada».

É curioso verificar que esta Ermida ou Capela originária de 1657, não aparece posteriormente referida, nem em Corografias e Dicionários Geográficos do século XVIII, nem nas Memórias Paroquiais da Caparica de 1758, tal pode indicar que a mesma, ou pela sua localização remota e certamente isolada, ou por uma existência efémera, poderá ter sido pouco conhecida à época.

De facto logo passado 5 anos da fundação da Capela, em 1662, o Casal da Aroeira (então chamado «Casal do Arneiro»), era aforado pelos herdeiros do Padre António Soares de Albergaria, Manuel Soares de Albergaria, seu sobrinho, e respectiva mulher D. Joana Brandoa (moradores em Lisboa, na rua dos Galegos), a um tal Bartolomeu Rodrigues, conforme se regista numa Escritura de aforamento de 7 de Novembro de 1662, nas notas de Gaspar Cardoso, tabelião em Lisboa (Index de Notas de Vários Tabeliães de Lisboa, T. IV, p. 71).

Da documentação recolhida não foi possível determinar qual o destino desta propriedade, existem no entanto algumas pistas:
Em 1700 um dos pinhais que confrontava com a Quinta da Charneca de Luís de Sousa Valdez (depois Quinta de Cima de Feliciano Velho) era o Pinhal de D. Fernando de Almeida, tio do 3.º Conde de Assumar/1.º Marquês de Alorna.

Em 1814/1816 é referido que o Pinhal da Aroeira fora confiscado ao Marquês de Alorna.
Tudo parece pois indicar que o Casal e Pinhal da Aroeira tenham sido adquiridos no último quartel do século XVII por D. Fernando de Almeida tendo depois passado à posse da Casa de Alorna.

Entretanto (depois da 1.ª edição deste artigo) foi possível confirmar na Lista dos Fregueses de N:ª Sr.ª do Monte de Caparica no ano de 1745, que o Casal da Aroeira pertencia ao já referido Conde de Assumar, residindo nele 6 pessoas, um casal, três criados, e um mateiro. [2.ª Rev.]

Segundo apurámos junto do Sr. Salgueiro (actual caseiro do Pinhal da Casa da Aroeira, ou Pinhal do Inglês), já no século XX o Pinhal e a Casa da Aroeira entram na posse de um senhor inglês de nome Alfred Sindley (?), estando actualmente na posse do seu filho, terá sido este Sr. Alfred Sindley responsável pela actual Casa da Aroeira, uma residência simples da primeira metade do séc. XX, que de acordo com o Sr. Salgueiro não terá mais de 60-70 anos, o que faria com que tivesse sido construída por volta dos anos 4o do século XX. [ 1.ª Rev.].
      Em 1972 o Pinhal da Aroeira era pertença de Alda Maria do Rosário Harriet da Silveira Bulloch e fazia extrema a norte com as Quintinhas, a nascente com Valbom, a sul com o Pinhal do Arneiro dos herdeiros de Domingos de Sousa e Holstein Beck, e a poente com o Pinhal dos Medos da Direcção Geral dos Serviços Florestais, conforme se depreende do Decreto n.º 213/72 de 26 de Junho. Este Decreto clarifica os limites administrativos entre os concelhos de Almada e Seixal, determinando que a extrema entre os dois concelhos seja estabelecida pela extrema entre o Pinhal da Aroeira e o Pinhal do Arneiro [3.ª Rev.]. 

(vd. http://www.igeo.pt/produtos/cadastro/caop/download/DO/Decreto_213_72.pdf)






 


(Foto Aérea e actual Casa da Aroeira e poço) [ 1.ª Rev.]


É no entanto é inequívoco que a cartografia mais antiga refere esta «Casa da Aroeira», como na Carta Militar do Barreiro 1:25.000, de 1939 (IGEOE) ou a Carta dos Arredores de Lisboa 1:20.000, de 1904 (IGEOE). Aliás numa Carta mais antiga a «Carte chorographique des environs de Lisbonne», datada de 1821, encontramos também registada uma casa, casal ou quinta da «Arueira», e mais curioso ainda é que próximo deste sítio, em pleno Pinhal dos Medos, no Medo do Pinhal Manço, cerca do sítio anteriormente referido como «Casa de Pau», e por alturas do sítio chamado da Adiça (que poderá corresponder às antigas Minas de Ouro que por aqui existiram da Idade Média até ao século XVII), há um registo de uma Igreja ou Capela, seria a tal Capela de Jesus Maria José, fundada pelo Padre António Soares de Albergaria no século XVII, não sabemos ... [ 1.ª Rev.]






(Uma Capela ? e o Casal da Aroeira, registados num Mapa de 1821: «Carte chorographique des environs de Lisbonne», Cfr. http://purl.pt/16986) [ 1.ª Rev.]


Outros Elementos patrimoniais antigos da Aroeira
Embora se possa tratar o elemento patrimonial mais antigo na zona da Aroeira, o Casal ou Casa da Aroeira, de que restam apenas vestígios na toponímia local, não foi a única construção antiga que existiu por estas zonas.
Pela análise da Cartografia histórica dos séculos XIX e XX podemos tentar encontrar nesta zona outros elementos edificados antigos.
Na Carta de 1816, «Carta Topográfica da Península de Setúbal», junto à escarpa já dentro do Pinhal dos Medos, entre a Descida da Raposa e a Descida das Vacas, encontramos uma «Casa de Pau», que poderá estar associada à guarda do referido Pinhal dos Medos, que era coutado.
Na «Carte chorographique des environs de Lisbonne», datada de 1821, encontramos outros elementos também muito interessantes já citados anteriormente a propósito do Casal da Aroeira.

Na Carta dos Arredores de Lisboa, de 1904, regista-se nesta zona, no Pinhal dos Medos, a «Casa da Guarda»; no Pinhal de Valbom, o sítio das «Malhadas»; no Pinhal da Aroeira, a «Casa da Aroeira»; e já próximo da Fonte da Telha, o «Posto Fiscal».
O «Quartel do Posto Fiscal da Fonte da Telha» é um projecto simples do Major de Eng.ª Esteves Pereira datado de 1907 (vid. http://sidcarta.exercito.pt/bibliopac/bibliopac.htm). [2.ª Rev.]

Na Cartografia de 1961, encontramos junto ao cruzamento da Aroeira, a «Casa do Guarda Fiscal»; junto à Descida da Raposa, o Edifício da 6.ª bateria do Regimento de Artilharia da Costa (operacional de 1958 a 1998); e ainda próximo da Fonte da Telha, o Marco Geodésico do «Cabo da Malha», extrema do concelho de Almada, e cujo topónimo é bastante antigo.
Alguns destes elementos permanecem, de outros já restam vestígios, outros ainda que desapareceram completamente na urbanização da Aroeira.


(Portão próximo à Casa da Aroeira, com as iniciais B. S.)


Património para o século XXI
Na arquitectura actual o que mais se destaca é sobretudo o Plano da Urbanização Golfe Aroeira ou Herdade da Aroeira onde pontuam diversos exemplos de boa arquitectura civil moderna, como por exemplo a Casa da Aroeira, Lote, 180, projecto de 2000-2007, da ARX PORTUGAL, Arquitectos Lda. – Arq.ºs José Mateus e Nuno Mateus. 
Os próprios Campos de Golfe são projectos de autor, neste caso de autores - Arqtºs Frank Pennink (Campo Aroeira I, inaugurado em 1973) e Donald Steel  (Campo Aroeira II, inaugurado em Abril de 2000) . [ 1.ª Rev.]  

(Urbanização Golfe Aroeira - Foto Aérea, Google Maps) [ 1.ª Rev.]


Ao nível dos equipamentos mais recentes, destacamos o edifício do Colégio do Vale, inaugurado em 21 de Setembro de 1992, e a Escola Básica / Jardim de Infância da Charneca de Caparica. [ 1.ª Rev.]


(Colégio do Vale - Av. Vale Bem) [ 1.ª Rev.]



(EB 1/JI - Av. Vale Bem) [ 1.ª Rev.]


Inaugurado em 1999, o Edifício "Sonho e Esperança", é sede da «Associação Almadense Rumo ao Futuro» (A.A.R.F.), IPSS fundada em 1990, e que apoia jovens e adultos com deficiências intelectuais e multi-deficiências, com idades a partir dos 16 anos, e compõe-se de um Centro de Actividades Ocupacionais, na Rua Soeiro Pereira Gomes, 2 – 4, Vale Bem – Marisol, 2820-387 Charneca da Caparica.


(Planta do Edifício "Sonho e Esperança" Fonte: http://www.aarf.org.pt)
     
(Foto do Edifício "Sonho e Esperança") [1.ª Rev.]

Uma comunidade católica na Aroeira, génese de um novo lugar de culto?

(Centro de Actividades Ocupacionais, no Edifício "Sonho e Esperança")


No dia 19 de Junho de 2011 realizou-se na Urbanização de Aroeira / Marisol, na «Associação Almadense Rumo ao Futuro», uma celebração religiosa da Paróquia da Charneca, não sei se se tratou da primeira a realizar-se neste zona da Freguesia da Charneca de Caparica, nem se será a génese de uma possível (?) nova comunidade cristã que no futuro poderá ganhar corpo num novo espaço religioso da Freguesia.

Na Paróquia de Charneca da Caparica, existem actualmente dois lugares de culto com missa regular: a Igreja Paroquial da Imaculada Conceição (edificada nos anos 60 do século XX), no lugar de Palhais (zona norte); e a Capela de São José (edificada em 1973 pelo Padre Condor), no lugar das Quintinhas (zona sul).
Se passar a existir missa regularmente na Aroeira, poderá tratar-se da génese de um terceiro lugar de culto / comunidade católica na Freguesia da Charneca de Caparica, por isso é importante guardar este dia, 19 de Junho de 2011, como mais uma data que deverá ficar registada na história e património desta Vila do Concelho de Almada.

RUI M. MENDES
Caparica, 20 de Junho de 2011


Edições e Revisões deste Artigo:

1.ª Ed.:       20/06/2011
1.ª Rev.:     26/06/2011
2.ª Rev.:     17/03/2012
3.ª Rev.:     18/08/2012